Quando o óbvio vem à tona
Por Ricardo Montesano

A polêmica ultrapassagem de Fernando Alonso em Felipe Massa no GP da Alemanha é mais um daqueles assuntos chatos e corriqueiros que existem na Fórmula 1 a todo instante, mas que ninguém tende a aceitar – principalmente quando envolve um brasileiro. Entregar a posição a um companheiro de equipe em melhores condições no campeonato é uma estratégia que vem sendo executada desde os primórdios das corridas de automóveis! E pior, naquela época o companheiro de equipe não entregava apenas a posição, mas sim o próprio carro ao piloto que estava próximo da ponta da tabela. Foi dessa maneira que Juan Manuel Fangio – de Ferrari, diga-se – foi campeão do mundo em 1956, graças às inúmeras ordens de equipe e, principalmente, à atitude generosa de Peter Collins, que simplesmente abriu mão de sua corrida para emprestar seu equipamento ao parceiro de equipe. Fangio, com isso, terminou a prova em quarto, posição suficiente para lhe garantir mais um título mundial.
Mas não precisa voltar muito no tempo para perceber que essas coisas são tão comuns que às vezes passam despercebidas por todos os fãs ou não de automobilismo. Em 2007, Felipe Massa tirou o pé e entregou de bandeja a vitória a Kimi Raikkonen no GP Brasil, última corrida daquele ano. Graças à primeira colocação, o finlandês foi campeão do mundo com apenas um pontinho de vantagem sobre Lewis Hamilton e Fernando Alonso (110 a 109), empatados em segundo. Em 1999, depois de quebrar a perna e ficar ausente de cinco ou seis corridas, Michael Schumacher voltou com tudo no GP da Malásia e deu um show de pilotagem! Mas como não tinha mais chances de ser campeão, deu de presente a vitória a Eddie Irvine, que quase faturou o título na etapa seguinte, no Japão. Isso sem mencionar o episódio Áustria-2002, quando Rubens Barrichello deixou Michael Schumacher passar; Jerez-1997, quando Villeneuve, de Williams, abriu para Mika Hakkinen, de McLaren, ganhar; Japão-1991, quando Senna cedeu o primeiro lugar para Berger. E por aí vai…
É preciso entender que ordens de equipe sempre existiram, existem e existirão. O problema é que a Ferrari utiliza desses recursos em momentos inadequados e inoportunos. E o que era para ser o óbvio em condições discretas e normais para os padrões da Fórmula 1, acabou se transformando em uma patacoada explícita em rede mundial. Uma troca de posições nos boxes, por exemplo, não daria margem para uma avaliação mais criteriosa por parte dos críticos de plantão.
Em resumo, não sou a favor das trocas de posições em momentos que não sejam cruciais de um campeonato, porém entendo perfeitamente a situação de uma organização que gasta os tubos para manter uma equipe de corrida ao longo do ano. Mas ela, por outro lado, deveria entender que trabalha com um negócio que vai muito mais além do que uma simples profissão com o objetivo de levar o dinheiro para casa. Esporte é paixão, emoção, adrenalina. Milhões de torcedores têm no atleta a válvula de escape dos problemas do dia a dia. E é para eles que os pilotos, no caso do automobilismo, trabalham.
Não acho justo uma punição à Ferrari, até porque não existe justificativa para isso. Cada um tem o direito de fazer o que achar melhor de sua vida. Mas depois, que aguente as consequências. Principalmente em um esporte mundialmente conhecido, que fica atrás apenas da Copa do Mundo e das Olimpíadas.


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